Aos 18 anos, nunca havia passado pela cabeça de Sérgio
Torreta, 31 anos, a idéia de se tornar um artista plástico.
Os acontecimentos o encaminharam para essa profissão,
fazendo com que descobrisse que tinha o dom de pintar
artisticamente. As circunstâncias que fizeram o artista
ir à primeira aula de pintura, a princípio, estavam
contextualizadas em momento difícil. Torretta se
recuperava de um acidente que o deixou tetraplégico e,
por insistência da mãe, começou a pintar como forma
de terapia. Uma vez apresentado ao mundo artístico,
Torretta descobriu potencialidades que desconhecia ter e
passou a dedicar sua vida à arte.
O trabalho ganhou novos rumos quando o artista começou
a ministrar worshops de pintura, voltados para pessoas
com e sem deficiência. A idéia desse trabalho surgiu
de um evento que Torreta participou no Rio Grande do
Sul. Lênia Luz Nogueira, que é namorada do artista e
fonoaudióloga, estava coordenando o evento junto com o
Instituo Pestalozzi de Canoas. Na oportunidade Torretta
ensinou técnicas de pintura em massa acrílica para
crianças. Surgiu então a idéia de realizar um projeto
de arte-inclusão e após 4 meses, Torreta e Lênia
organizaram o primeiro workshop.
Sentidos:Há quanto tempo se dedica a pintura?
Sérgio Torretta.:Com gosto e seriedade há cerca de
8 anos, mas a primeira vez que peguei em um pincel para
pintar foi em agosto de 1994.
S:Você sempre teve dom para pintura ou começou a
atividade como uma terapia?
S.T.:Sempre nascemos com algum dom mas, ás vezes,
ele que pode ficar adormecido. No meu caso, só o
descobri depois que me acidentei. Comecei a pintar como
terapia, para sair de casa, ver gente na rua, tomar sol,
conversar.
S:Você se
acidentou aos dezoito anos e teve uma lesão em 3 vértebras
(é isso?). Como tudo aconteceu?
S.T.:Sim, estava com 18 anos e era o último fim de
semana de férias. Até então, iria começar o 2º ano
do ensino médio (antigo 2º grau) e estava num
churrasco na casa de um conhecido com um grupo de
"amigos". Estávamos nos preparando para irmos
embora quando decidi dar um último mergulho para
refrescar o corpo e foi aí que tudo aconteceu.
Mergulhei de ponta e fui de cabeça no fundo da piscina,
fraturei as C4, C5, e C6 (vértebras do pescoço). Perdi
na hora os movimentos do corpo e fiquei boiando de bruços
a espera de alguém perceber o que tinha acontecido e me
tirar da piscina. Depois tive que enfrentar um hospital
despreparado, uma cidade despreparada, além de eu próprio
estar despreparado.
S:Você ainda era adolescente. Como foi para lidar
com o que havia acontecido?
S.T.:É verdade, estava naquela idade em que achamos
que somos o máximo, que nada pode nos acontecer. E é aí
que mora o perigo. Depois que tudo acontece, e esse foi
meu caso, lidar com o desconhecido foi muito difícil.
S:Com que tipo de apoio você pôde contar para
superar os momentos difíceis?
S.T.:O apoio da família é essencial, quando falo
família, é pai, mãe e irmãos. E minha família foi
muito importante em minha recuperação. É com eles que
posso contar sempre. Me deram segurança e apoio para
continuar a tentar levar uma vida quase normal. Logo após
me acidentar e até hoje conto com eles em todos
momentos de minha vida. Amigos!? Acho que na grande
maioria dos casos os amigos somem depois que nos
acidentamos.
Hoje, como você
entende a deficiência?
S.T.:Hoje vejo a deficiência como
um"deficiente". Aprendi a lidar todos os dias
com barreiras arquitetônicas, preconceitos e a exclusão
social como um todo. No entanto, trabalho nas minhas
eficiências e convivo muito bem com minha deficiência
procurando melhorar minha qualidade de vida com aquilo
que é possível.
S:No seu site, você conta que a Internet o ajudou a
descobrir um novo mundo, que o ajudou a entender que
poderia levar uma vida normal. Foi nesse momento que você
retomou sua vida? Voltou a fazer amigos, namorar, ter
independência..... S.T.:Sim, esse foi o ponto entre
o antes e o depois. Onde descobri que não era o único
deficiente na face da terra (risos), principalmente
depois que entrei numa lista de discussão na internet
voltada a PPDs, onde conheci e fiz muitos amigos. Gente
que trabalha, que namora, que estuda, que viaja, enfim,
gente que VIVE. Estimulado por uma amiga da lista, a
Fernanda Grimberg, voltei a estudar e terminei o ensino
médio. Hoje estou namorando com a Lênia e trabalhamos
juntos em um projeto de arte-inclusão.
S:Voltando a
pintura. Você considera que a atividade artística
colaborou para sua reabilitação emoc
ional?
S.T.:Certamente, para eu ir à aula de pintura tinha
que sair de casa, para sair de casa tinha que me arrumar
e isso foi trabalhando minha auto estima. Tinha vergonha
de sair de casa e enfrentar os olhares das pessoas. Com
as aulas de pintura veio a vontade de aprender mais,
aprimorar minha técnica, fazer novos amigos, conversar,
enfim, sair de casa.
S:Como foi quando começou a perceber que tinha um
dom artístico?
S.T.:Foi quando pintei minha primeira tela sozinho
em casa sem nenhuma ajuda, sem nenhum traço da
professora de pintura. E saiu razoavelmente boa (risos)!
Isso demorou cerca de 1 ano de pintura. Sou muito
perfeccionista com tudo o que faço e até achar que
tinha dom demorou um pouco.
S: A pintura virou sua profissão. Como é seu
trabalho, o que você busca representar através dos
quadros que faz?
S.T:Trabalho com pintura à óleo e sou bem eclético
nos estilos. Gosto de pintar casarios, paisagens,
marinhas, florais, naturezas mortas, modernos e
abstratos. Quando inicio uma tela penso na harmonia das
cores e em passar um bem estar para as pessoas que irão
apreciar meu trabalho. Quando recebo pedidos de
encomendas, muitos deles através do meu site, procuro
trabalhar em cima do desejo do comprador sem deixar a
minha emoção durante a produção da tela de lado.
S:Como são os workshops que você ministra? Eles são
voltados apenas para pessoas com deficiência? O que você
procura passar?
S.T.:O Workshop faz parte do projeto de arte-inclusão
que eu e Lênia trabalhamos. Iniciamos o workshop com
uma mini palestra onde conto um pouco sobre como me
acidentei, como descobri a pintura, explico um pouco
sobre as cores que usaremos na pintura, faço as pessoas
sentirem a tela para tirar a ansiedade inicial e depois
sim começo a aula. As pessoas se soltam aos poucos e
acabam totalmente relaxadas no fim do workshop. Quando
decidimos montar esse workshop que acabou virando um
projeto de vida, decidimos que seria aberto à todas
pessoas e o intuito principal era promover a inclusão
entre deficientes e não deficientes. Em todos workshops
que já ministramos houve essa integração entre o
deficiente e o não deficiente, dos 7 aos 80 anos.
Procuro passar que tudo é possível, que podemos sempre
ir um pouco mais além do que pensamos ser realmente
capazes de fazer.
S: Como será sua participação na Reatech de 2004?
S.T.: Participaremos como expositores e
ministraremos também um workshop de pintura à óleo
com motivo abstrato com uso de massa acrílica. È uma técnica
que dá um auto relevo bem interessante nas telas. A
exposição será na Galeria de Artes da feira nos dias
25 a 28 de março e será aberta ao público. Para os
interessados no workshop as informações e inscrições
estarão abertas até o dia 18 via internet nos e-mails
storretta@bol.com.br ou lenia_luz@hotmail.com . Horários:
25 e 26 das 13 às 21 hs - 27 e 28 das 10 às 19 hs Meu
site: http://www.vidaearte.com