
Bem, vou falar um pouco de mim agora.
Fiquei tetraplégico aos 18 anos depois de um mergulho "bem dado" no fundo de uma piscina rasa.
Estava reunido com amigos, curtindo um churrasco em um lindo dia de sol. Isso na casa de um conhecido meu na cidade de Matão / SP aonde morava.
Com o mergulho fraturei a quarta, quinta e sexta vértebra cervical. ( C4, C5 e C6) o que causou-me de imediato a perda de todos movimentos do corpo. Fiquei ali, boiando na piscina por mais de um minuto a espera de que algum amigo percebesse o que havia acontecido e me virasse para não começar a me afogar. Pronto, um colega me virou e pedi para que chamasse mais alguns amigos para me tirarem d'água. Meu pai costumava brincar que por causa do tempo que fiquei prendendo a respiração debaixo d'água fiquei pentaplégico.. hehehe
Pronto. Começava ai o desafio.
Foram-se quase uma hora entre a fratura no pescoço até os primeiros cuidados médicos. Aí depois vem todo aquele procedimento do socorro inadequado, falta de equipamento apropriado para uma lesão medular e ainda mais para uma lesão cervical, aliás, naquele tempo não havia sequer carro de resgate na cidade de Matão.
Depois de tudo passado entre o socorro e a chegada no hospital, pronto, agora estou bem seguro... que nada, fui direto para Ribeirão Preto e lá somente depois de passar em dois hospitais que me recusaram socorro por não haver vagas, o motorista da ambulância parou no terceiro (Hospital São Francisco) e de lá não saí por longos e dolorosos 45 dias. (deixa explicar essa parte de ter que ir para Ribeirão Preto: quando acontecia algum acidente grave encaminhavam para Araraquara e quando era gravíssimo ia direto para Ribeirão Preto, então...)
Agulhas me espetando desde a ponta dos pés até a altura dos ombros, tomografia computadorizada, tração cervical, operação para reconstituição das vértebras, complicações pós operatórias, volta pra casa, melhoras e por aí vai até os dias de hoje. Isso já fazem quase dezesseis anos, me acidentei 16 de fevereiro de 1991.
Acho que o sonho de todo lesado medular é ir fazer sua reabilitação na Rede Sarah de Hospitais (http://www.sarah.br)
Lá fui eu para o Sarah de Brasília e com toda aquela expectativa de uma melhora nos movimentos que todos que vão para lá têm. Não recuperei nenhum movimento, mas como aprendizado e re-aprender a entender como seria meu corpo de ali em diante foi muito bom. Hoje mesmo após 16 anos de lesão continuo com o mesmo tônus muscular e força do começo. A melhor recomendação médica que tirei proveito de lá foi a de beber muita água para cuidar dos rins e preservar meu corpo sempre são. Para não atrofiar e se algum dia surgisse alguma cirurgia que pudesse tirar proveito meu corpo estaria em dia para fazê-la.
Foram 3 meses internado aprendendo a escrever e digitar com adaptações, fazendo muita fisioterapia, passando pela psicologia, enfim, me adaptando a uma nova vida.
Lembro quando no primeiro dia de internado, estava lá triste, sozinho na enfermaria e uma das enfermeiras veio falar comigo e depois de nossa conversa, ela me disse o seguinte:
Sergio, você vai ter saudades daqui.
Falei: Imagina, saudades daqui? Tá louca é?
Mas quando estava de saída, com viagem de volta marcada pra casa é que aquelas palavras tiveram peso, entendi que o que a enfermeira me falou nada mais era do medo, do receio de enfrentar o mundão lá fora.
Expectativas, medos, como enfrentaria? Como seria de agora em diante? Como lidar com a frustração de amigos e familiares e até nossa mesmo? De voltar recuperado para casa, saindo do avião com direito a faixas e balões de seja bem-vindo, receber beijos e abraços felizes de todos, é, não é fácil né?
Chegando em casa vem os primeiros cuidados, ou seja, as primeiras providências de adquirir cadeira de rodas, colchão anti-escaras, procurar fisioterapia, adaptar portas e locais da casa onde iremos circular, etc.
E nisso, no meu caso, deixei o resto da vida de lado, meu maior erro foi ter dado prioridade total à minha recuperação e com isso larguei o término da escola, planos de fazer faculdade, não saia de casa por vergonha, acredita?
Vivia, respirava, só pensava em ficar bom, andar novamente. Era o mais importante naquele momento.
Com isso foram passando os anos... até que em 1994 entrei para um curso de pintura.
Confesso que fui quase forçado pela minha mãe, ou eu ia ou eu ia, entende?
Depois de algumas farpas trocadas entre minha mãe e a professora por ela não querer me dar aula por não estar habilitada a lidar com deficientes, entramos em acordo de pelo menos ela tentar uma vez, e se desse certo eu continuaria nas aulas. Não é que gostei da coisa? Até que levava um pouco de jeito pra coisa e continuo com minhas pinceladas até hoje, que me rendem uma grana legal pra me manter.
Mas foi só isso, não continuei com os estudos, não sonhava, a vida era só esperar, esperar, esperar por um milagre. E fui vivendo assim...
Até que em 1999 ganhei um computador usado da minha tia, um 486, que fui logo aprendendo a lidar com o poderosíssimo windows 3.1
Dali há pouco mais de três meses comecei a entrar na internet e descobrir um novo mundo, um mundo que eu dentro do meu mundinho fechado numa cidadezinha de interior estava longe de mim.
Comecei a entrar em sites, chats, mandar e receber mails, fazer amigos de todas partes do mundo, e com isso fui descobrindo um novo horizonte.
Horizonte esse que se abriu muito mais para mim depois que conheci a Lista Vital, hoje Porta de Acesso
( www.portadeacesso.com )
Desde quando entrei na lista fiz muitos amigos, participei de encontros vitais, voltei a estudar por incentivo da amiga Fernanda e conclui o ensino médio em 2002 depois de dez anos parados .
Foi com exemplos dali que comecei a acreditar que podia levar uma vida normal mesmo estando em uma cadeira de rodas, mas normal, com estudo, trabalho, viagens, casar, ter filhos, relacionamentos afetivos, sexo, enfim viver, nada mais normal não é?
Dai em diante minha vida mudou completamente.
Em 2002 comecei a namorar uma garota e me descobri como HOMEM. Foi difícil no começo a acreditar que uma mulher "perfeita" olharia para um homem em uma cadeira de rodas com o olhar de desejo entre homem-mulher.
Foram 11 meses de namoro e foi legal pois foi minha primeira mulher. Acabou pela distância. Pelo não convívio. Ela morava em Brasília e eu em Matão. 800 km de distância. O rompimento foi sofrido como qualquer relacionamento.
Logo veio a dúvida novamente.
Será que existe outra louca que olharia para um homem numa cadeira de rodas?
Existe sim. Conheci uma pessoa e começamos como amigos. A amizade foi crescendo e o carinho também.
E entre conversas e mais conversas pelo ICQ acabamos nos apaixonando. Fomos nos conhecendo e o amor tomando conta. Mas tinha o mesmo problema.. a distância.
Nos víamos de 15 em 15 dias e isso durou cerca de 5 meses. Até que surgiu a oportunidade de dar um workshop de pintura na cidade de Curitiba (cidade dela) e desse workshop em diante não voltei mais para Matão.
Comecei a ter uma vida que jamais sonhei há 16 anos atrás. Mudei-me de Matão, interior de São Paulo com pouco mais de 70.000 habitantes, para Curitiba.
Fiquei mais independente. Comecei a usar minha cadeira motorizada que havia ganhado há algum tempo e não a usava por falta de oportunidade e confesso por um pouco de vergonha. Em Curitiba perdi o medo de sair à rua... saia pra tudo que é lado, fisioterapia, fazer compras, trabalhar, Correios, dar aula de pintura, namorar...
até flores ia sozinho escolher e mandar.
Não estamos mais juntos. Foram quatro anos de muitas trocas. Aprendemos muito um com o outro. Nos tornamos pessoas melhores. Aprendi a ser companheiro, a amar de verdade e deixar ser amado. Isso fica para o resto da vida.
Hoje, em 2007, estou em outra etapa de minha vida.
A vida me trouxe para São José, SC.
Novos desafios estão para serem vividos e vencidos.
Acredito em um novo amor e não estou fechado.
Em outro momento falo das aventuras e conquistas que estou tendo nos últimos tempos.
Mas o que quero deixar mesmo para vocês, é um grande abraço e que tem momentos que achamos que tudo não adianta, mas com ajuda e FÉ em Deus tudo podemos,
certo?
Abraço desse novo amigo,
Sergio Torretta

